31.5.12

Medo


Amanheço. Por entre as dobras do ninho dos cobertores, travesseiros e lençóis, silenciosas mãos côncavas que me escondem como capa mágica da invisibilidade. Arranho por dentro o meu céu e ele, ainda, me sopra estrelas. Queria poder guardá-las na cadencia das horas em que me acho, mas, me perco.
Destranco a janela da alma e avisto os meus medos ao longe confabulando com o cinza do dia. E tudo se cala como uma silenciosa oração desenhada com baforadas no vidro. Meu corpo deságua raios e trovões, convulsão de um vulcão que quer expelir as sombras da caverna.
A neblina dissimula as carícias das mãos frias do medo.
Vou queimando por dentro e amontoando as cinzas em um canto, a espera que algum pássaro voe até a colina mais alta e espalhe o meu olhar inocentemente.
Encaminho-me com passos sonâmbulos como oferenda prestes ao sacrifício. De um lado, a solidão que estende a mão morna; do outro, a incerteza que escancara a sua voraz boca de abismo.
- Não quero mais ter medo de sentir medo!
Estendo os dedos como um cinzel pontiagudo e contorno, descolando, a face da solidão. Não saberei hoje dizer, se como o último ou o primeiro gesto, antes de anoitecer.

...Desfecho...

As portas nem sempre são as mesmas...
Algumas abrem para dentro...
Outras para fora...
Não há registros das tantas que fui...
Se...
Na mesma medida das que chegaram...
Mas é certo que esse desfecho estava escrito pela ponta das estrelas ...
Neguei-me a le-lo...
E permiti que nos tornássemos um começo sem fim...
Quiçá um fim que começou antes do início...
Agora preciso que vá...
Leve-me...
Melhor que não voltes nunca mais!

30.5.12

...Sinfônica...

Nado nesse oceano sem fim, percorrendo falésias, avisto corais, toco com as pontas dos dedos a vida marinha que baila ao som do silêncio de [a]mar que há em mim. Bóiam marinadas lembranças na superfície em que vou recuperar o fôlego, sustentando-me como se fossem tábuas que me fazem respiração [boca a boca]. Embriago-me com as asas das borboletas que emprestam ao mar o seu farfalhar. Submergem-me como um gole inteiro para regurgitar-me à tona como se me devolvesse à cratera da vida, escancarada boca que me expele em solfejos.

...De mãos dadas com a solidão...


A tarde já ia tão longe que alcançava a noite. Alquebrada pela labuta semanal, resolvi saborear um café antes de entrar em casa. Fui pensando no final de semana que viria, admirando o momento em que o dia dilui-se à noite e que particularmente, me encanta como se fosse visto pela primeira vez. Deixava a mente vagar morosa, equilibrada sobre os traços dos planos que havia para o feriado prolongado, já que precisava me habituar pensar a dois.
Cheguei ao café e por sorte, minha mesa predileta estava vazia. Interpretei como um bom presságio. Analisando hoje, acredito que tenha sido realmente. Tenho uma amiga que usa uma frase - “momentos mágicos” – e é disso que falarei agora, de um momento mágico.
Cliente assídua, só precisei fazer um gesto e meu café estava materializado na minha frente. Esses rituais me agradam deveras. Mesmo antes de levar a xícara aos lábios, fui arremessa para a realidade. Quem me conhece sabe que meu pseudonimo é solidão. Gosto mesmo sem nenhum pudor, mas, não contava que nesse dia a sentiria entre minhas mãos.
O som de uma cadeira sendo arrastada, um breve pedido de desculpas e já instalado a minha frente, estava ele, o barqueiro. Talvez esteja sendo um tantinho irresponsável no uso dessa denominação, mas foi assim que me senti. Primeiro olhei para ele com um olhar talvez de reprovação, traduzido pelo sorriso amarelo que me endereçou. Mas, sei que logo que o fitei nos olhos, o meu arrependimento também se fez palpável e então ingressamos em algo que só consigo denominar como papo sem pé nem cabeça.
Não pronunciei meu consentimento, nem tive espaço para faze-lo, pois logo a seguir estava recebendo uma torrente de “elogios”- acredito que uma maneira gentil de desculpar-se pela audácia - e lhe respondendo com um certo tédio, a um questionário que pelo tempo passado, pouco me recordo:
- Uma moça de olhos melancólicos sozinha num café, vem sempre aqui? Nunca te vi?
Abro a boca e forço o som a sair: - talvez...
- Perdoe-me, mas lhe vi sozinha e como também estou solitário...
Abaixa a cabeça e se cala por um instante, tempo suficiente para que o meu desconforto se afastasse e eu esquadrinhasse sua figura. Um homem de estatura mediana, não sei precisar a idade – dos 60 aos 70 diria - cabelos castanhos claros, fios grisalhos salpicados. Bem vestido, mas barba por fazer e magro. Foi o que o tempo permitiu-me ver.
Quando me olha novamente, eu já estava com uma certa complacencia num tímido sorriso e então ele recuperou o folego numa generosa golada de café:
- Voce sabe o que é a solidão?
E antes mesmo que eu iniciasse o meu discurso sobre conhece-la, gostar, bla, bla bla, ele emendou:
- Tenho certeza que não. Mas hoje está diante de um homem que quando dorme, acorda abraçado com ela.
E suas palavras estavam vestidas pelo olhar mais dolorido que já vi na minha vida. Não era uma dor física, nem era um sofrimento proporcionado pelas mazelas vida. Mas era uma dor de quem fere a si mesmo. Um sofrimento de saudade de quem não sabe, nem mais, do que nem porque que. Meus olhos me traíram, alaguei o momento sem permitir que transbordasse. Sufoquei-o no meu melhor sorriso. Ele também sorriu, desta vez sem nenhuma cor - disfarcei me servindo de um cigarro.
Contou-me dos dias que não tinha coragem de voltar para uma casa vazia e das suas noites em bordeis baratos. Do quanto tinha que pagar para ter uma pseudo companhia e do quanto se sentia explorado, mesmo tendo que pagar alguém para se sentir ainda mais só.
Tudo isso foi sendo derramado entre nossas xícaras de café e o meu silencio por falta de palavras. Por que eu tinha que saber de tudo isso? Lembro-me do exato momento em que pela primeira vez fui tocada, de forma material, pelas mãos frias da solidão. E posso lhes garantir - não foi só meu corpo quem estremeceu:
- Posso?
Já tendo alcançado minha mão sem que eu tenha tido opção de recusa. Não posso dizer que estava calma, muito menos nervosa. Sentia-me inteiramente esvaziada!
Mas, já que tive essa chance, que fosse completa. Envolvi sua mão entre as minhas e olhando nos olhos lhe disse:
- Não sei o que lhe dizer, nem sei por que estamos aqui. Não me sinto em condições de lhe aconselhar, acredito que nem a voce nem a ninguém, como também sei que não sou a solução para suas dores - tenho apenas o calor das minhas mãos para lhe oferecer - já que fomos unidos pelo universo, alguma razão há de existir. Preciso ir embora, e quero levar desse encontro uma oportunidade à reflexão:
- Por que nos autosabotamos?
- Qual a medida certa do amor próprio?
- Como queremos chegar ao fim da linha da vida?
Antes que ele tivesse chance de réplica, esse portal foi fechado pelo som da campanhinha do meu celular dentro da bolsa. Estava confirmado que era realmente a hora de partir. Não me cabia saber as suas respostas.
Atendi o celular. Em despedida lhe estendi a mão, desta vez por vontade própria e recebi um beijo:
- Vá menina bonita dos olhos melancólicos, seja feliz, não faça a vida lhe esperar...
Saí andando como se a calçada não existisse sob meus pés. Me senti como se tivesse andando sobre águas. Fui invadida por uma serenidade que até hoje sinto quando me lembro desse episódio, mas ainda não sei como traduzir tudo isso em palavras e por isso, nunca havia contado a ninguém.
Fico às vezes pensando sobre nossas escolhas, são tantos os caminhos. Depois desse dia incorporei mais um ditado a minha vida: não há caminho certo, seja qual for a minha escolha, tenho a obrigação de chegar bem ao seu final.
Bem, se “ainda” estou viva - Um brinde aos meus tropeços e aplausos às minhas conquistas...e assim...entendo que isso seja felicidade.

29.5.12

...Cenário art nouveau...

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O tempo mastiga calmamente os meus passos...
Sobre a mesa, descansa a toalha nacarada pelos meus sorrisos...
A nuance dos raios de sol sobre o guardanapo, sobressaem as manchas salpicadas pelas minhas lágrimas quentes...
E na taça o sumo das flores que reguei com meu sangue...
Refestelastes sobre meus ossos fraturados pelo cansaço...
Um banquete farto que lhe foi oferecido sem nenhum pudor...
Um cenário art nouveau de páginas de uma vida que se despede de mim...
Rasgada no silêncio da alvorada que se precipita por essa noite à dentro...
Não espere alimentar-se nem mais uma vez...
Hoje escolhi assistir sucumbir-te de inanição!

...[Arma]dura...

Acordo de um sonho encarcerada em amarras duras que me protegem o corpo, mesmo que me doa a alma inquieta...
Oscilo com movimentos lentos que me levam e me trazem à realidade...
O dia aquecido pela esperança está amanhecendo a minha noite fria e não há nenhum predador à vista...
Sobreviverei...
Sei que ainda tenho asas e preciso apenas mergulhar vertiginosamente sem medo...
E mesmo de olhos fechados sei que não perderei o norte...
Faço parte de um bando que voa para o horizonte...
Estou protegida por asas amorosas que me cuidam...
Há um vento calmo dentro de mim que me sussura palavras de conforto ao ouvido:
"Calma, deixe que o tempo passe!"

...Digitais...

Pressinto sombras ao meu redor...
Borrões emergindo de cacos de espelhos que há muito tempo quebrei...
Vozes sem ecos que repetem meus passos em tropeços sem pegadas...
Hão de querer-me superar naquilo que melhor eu faço?
Talvez, se soubessem que nem melhor nem pior que ninguém...
É a parte que em mim é única e trago tatuada nas pontas dos dedos...
E enquanto se esgueirarem a trilhar meus caminhos perdem-se de si mesmos...
Vagos se tornam na fumaça, espectros de mim sem reflexo algum...
Mas ainda assim, estendo as minhas mãos de compaixão, oferendas de quem nada teme perder...
São fachos reluzentes, sinais intransferíveis que me destacam e me transmutam a cada amanhecer...
Identidade...
E cada um tem a sua...
Felizmente!

...Súplica de uma estrela...

Galileu, Galileu...
Onde está a tua alegria de passageiro estrelar em que pisavas de mansinho, como se fosse a própria lua a descobrir o meu céu de sorrisos?
Onde está o tempo que criava monstros e fazia correr para trás os ponteiros do tempo, só para poder nominar todas as coisas que descobrias em mim?
Onde está a tua volúpia em desnudar-me, para embriagar-te com meu perfume de constelação?
Foste deliciar-se com os conteúdos dos frascos opacos, e voltaste com os olhos turvos e cansados que não mais me alcançam.
Sinto como se estivesse sendo guardada por um leviatã enfurecido e nem eu mesma sei, se a minha tristeza é porque ainda, enxergas o brilho de uma estrela que já deveria estar morta; ou porque, simplesmente se enfadaste dela.
Vago sozinha nessa imensidão abissal que se interpõe entre nós, a lutar com os fantasmas nebulosos do infinito, que me abrem a sua boca num bocejo negro, indispostos a me engolir.
Galileu...Galileu...
Ainda reluz um último lume de esperança nos meus olhos...
Não permita que eu adormeça...



...Sem Titulo...

[Vania Lopez & Valéria Cruz]

As palavras ainda não escritas
Por entre os desenhos das nuvens encarnadas do fim da tarde
Rolam como estrelas que eu trazia
Em pingente chave de um infinito trancafiado no peito
Encostadas no pó de cada segundo
Reluzindo como o amor que tudo consome e perdoa
Que espera pelo perfume de ser
A trilha que conduz a entrada
Sem saída de mim

...Pertences...

Essa é mais uma vez em que ela abre aquela gaveta! Poderia jurar por todos os deuses do olimpo que seria sua “ultima vez”! ?! Aperta os olhos numa tentativa de recuperar a memória, que já lhe vai gasta pelo tempo. Quando foi que fez o primeiro juramento...
Mas, deixando de lado as obrigações das lembranças, segue escarafunchando esse recipiente, que mais lhe parece uma caixa de pandora...tudo tem vida própria. Consegue sentir a respiração entrecortada, os ais, os sorrisos, o escoar das lágrimas...tudo ainda está muito vivo naquele universo paralelo que ela criou para aninhar suas memórias.
Agora suas narinas são inundadas por um impregnante cheiro de mofo. O passado que outrora exalava um perfume de sândalo, agora cheira a mofo. Mais uma vez, se sente inclinada a atear fogo em tudo, destituir-se dessa responsabilidade com suas juras. Mas, algo dentro de si se contorce em alerta, para lembrá-la de que nunca teve obrigação de nada. Compactuou com o destino a nunca se sentir na obrigação de viver, posto que, levaria a vida como um orgasmo múltiplo de incertezas.
E assim, mais uma vez...fecha a gaveta sem culpa. Quiçá algum dia conseguisse esvaziá-la...acondicionar outros pertences...

Quiçá algum dia conseguisse caber inteirinha dentro dela...



Muitas vezes tudo não passa de papel picado...
Outras tantas, documentado memorial que exige ser preservado...
Mas, difícil mesmo é quando não se sabe o que fazer quando os sentimentos estão se rasgando entre seus dedos...

...Eu Juro!

Juro ao sagrado respeito que tenho pelo que desconheço: sobreviverei até o fim dos meus dias!
Faz-se necessário hoje, abrir meu diário...
Desenrolar esse pergaminho que mais parece um novelo, por tantos embaraços...
Mergulhar, até perder o folego, por entre as páginas amarelas de outrora...
Ouvir os sorrisos inocentes de menina...
Contornar desenhos de sonhos irrealizados...
Passar de olhos fechados, por algumas que, ainda, estão coladas...talvez, elas não queiram nunca mais serem lidas...
Tatear com cuidado nessas recordações, escorregando nas entrelinhas...em busca do elo perdido...
De que vale a pena existir, se nascemos para morrer...
Se vivemos morrendo de alegria, de saudade, de amor...
Tantas vezes me perdi na tentativa de me encontrar...
Tantas vezes caminhei altiva acreditando estar no meu caminho certo...
Tantas vezes faminta e sedenta...embriagada de emoção, nesse mar de sentimentos contraditórios que sou eu...
E me encontro...ainda com os olhos no horizonte...
Feliz, triste, confusa...
Viva!
Um baú de histórias empoeiradas que talvez, nem eu mesma, queira mais ler...
Mas é meu único tesouro, esse enigma gravado à fogo que arde sem consumir...
São páginas chamuscadas de alegrias e dores, que se perpetuam, à revelia do meu tempo de vontades e necessidades...
Fazendo de mim esse barquinho de papel marche que soçobra pelas vagas do destino...
Não importando onde irei chegar...
Sei que preciso chegar inteira!



A minha meninice tropeça nos fios de cabelos brancos que “tranceteiam” o alto dos meus pensamentos...
E o colorido da pele vai esmaecendo num ton sur ton...
O corpo já não acompanha os arroubos da mente inquieta e indolente...
E percebo que estou me dobrando...
Indômitos são os vincos do tempo sulcando a alma... 

...Ano Novo...

...Perdi a hora...e já são quase quarenta e seis...

Um dia acreditei...
Que adormecer embrulhada num cobertor de plumas...
Ser-me-ia conferido o direito de voar...
E que ao pisotear as rotas invisíveis do destino...
Livrar-me-ia de todos os desenganos...

Um dia acreditei...
Que o abismo era o meu lugar...
E que o tempo oferecer-me-ia sempre um céu de brigadeiro com muitos pássaros e borboletas...
E nimbos fofos para repousar meu cansaço...

Um dia creditei...
Em um caminho adornado por orquídeas selvagens...
Com calçamento de pedras preciosas...
E gotas orvalhadas que refrescariam todos os meus sorrisos...
E que as flores oferecer-me-iam suas pétalas para acolher minhas lágrimas...

Um dia acreditei...
Que todos os meus dias, seriam brilhantes como o sorriso do sol...
E as noites, mágicas como os múltiplos semblantes da lua...
E que todos os acordes do universo estariam condensados no ruído do escoar das chuvas...
Na toada da rebeldia das marés...
Na sinfonia dos rios quando deságuam em cachoeiras...

Um dia acreditei...
Que pudesse reduzir em letras todo o sentimento...
E que a exposição das minhas intimidades...
Saciaria a esperança...

Então hoje despertei...
No olho inchado de mais um inferno astral...
Emaranhada nos fios das teias do destino...
Pendurada no desgastado beiral do tempo...

Acreditei!
E ainda quero creditar...que posso acreditar...



Aproxima-se em passos galopantes o dia de comemorar o meu primeiro choro...

Aquele que me arremessou no mundo...
Descerra-me uma melancolia de feto que não quer abandonar o ninho de carne...
Então mais uma vez...choro...
Por todas as benesses que desfrutei...
Por todas as dificuldades que enfrentei na vida... 
Choro copiosamente em silencio pela pior delas...
...não saber se estarei pronta...na hora certa de despedir-me de uma juventude, que já vai ao longe...acenando-me um definitivo adeus...

..Viagens a mais...


Agasalhada na urdidura translúcida da esperança, aguardava na estação o campanário da vida anunciar a viagem. Era uma espera calma, refrescada por um vento que assoviava mansamente sua nuca. Quiçá, se apurasse os ouvidos, pudesse traduzir o que lhe soprava – nem toda espera é justamente recompensada. 

Mas ela aguardava porque não esperava louros. Suas colheitas foram fartas de flores e outras abobrinhas mais. Mas, desprendera-se da vaidade e a sua fome de vida, exigia ser saciada por outros fluídos.
A mente esvaziou-se das conturbações externas. Era novamente uma menina e corria fagueiramente à velocidade da luz.
Nas mãos, seu caderno de brochuras com folhas colhidas no varal da incerteza. Entre as pálpebras, todos os mares de desenganos represados, embora, a alma transbordasse inundada de um amor sem fim.
No bolso um volume, um bilhete emitido pelo destino, acomodava-se a um corpo, que mesmo espoliado pelo tempo, ainda se umedecia com o viço do prazer pelo desconhecido.

...Desmantelo e outras imagens a mais...


Rasgadas as teias
Envelhecidos instantes
Tudo é vazio e distante

Plastificadas sereias
Cantares vazios
Mudos ecos

Incoerências veladas
Desfrute sem gosto
Refestelo de toscos

...Ausentei-me...


...a tarde contorna o fim do dia...meus olhos percorrem o ocaso, mesmo sabendo que jamais conseguirei dete-lo... 
A cada dia um novo mergulho...volto para casa agasalhada no manto da noite...de mãos vazias e um peito florido de girassóis... 
...não sei se cedo ou tarde...

..Reticências...

Percorro caminhos prolixos deixando pegadas invisíveis...
Que o universo leia nas entrelinhas das minhas frases curtas...
O meu flerte atrevido com o clichê...
A essência da minha alma inquieta...
As explicações se dispersam e se entrelaçam em tramas tecidas pelo tempo...
São elas que acobertam os meus mais íntimos segredos...
Levo no peito a leveza das certezas...e nas mãos o peso das dúvidas...
No diário da minha existência...
Bordo as páginas com reticências por negar-me ao encontro com o ponto final!


...Voce é para Mim...


Não te diria tão somente...Você é quem amo de amor...

Porque não cabe no peito, o que de mais íntimo, carrego nas bordas do meu sorriso...
Pois, se Tu És o suspiro das minhas inspirações...as vagas das minhas lembranças...
Os dias e as noites de uma bússola sem Norte...esse ponteiro travado no Sul de um céu leitoso, onde Sol e Lua, amalgamam-se como amantes que insistem em não se separar!
Não te diria tão somente...Você é quem amo de amor...
Porque fico muda de palavras, que afogaram-se no charco das carnes tremulantes que animam minha alma, ensopada de ternura e contentamento ao tocar a sua...
Pois nua, a minha pele arrepia de saudade do calor da tua!
Não te diria tão somente...Você é quem amo de amor...
Porque fico insone levitando no mundo de um sonho inacabado que se reprisa a cada música que toca...a cada florada primaveril...todas as vezes que o vento acaricia meu cabelo...toda gota de chuva que me toca a pele...
Pois Tu És, a real paisagem, o elixir da paz, o som celestial, que nina as minhas pálpebras até fecharem-se abraçadas ao sono!
Enfim...posso te dizer que Você é para mim, o baluarte onde deita-se a verve escrita...e singra em tinta sangue os rabiscos do meu folhetim!


Nota de agradecimento:
Carinhosamente a escritora, poetisa e Membro da Academia de Cultura da Bahia, Verenka de Araújo, convidou-me (encaminhando atenciosamente ao editor da revista), a participar da 25 publicação da Minirevista Literária Contando e Poetizando, que trará o tema Voce é para mim...
Antecipo para voces aqui, pois, a revista é apenas impressa e não circula na rede...
Obrigada Verenka! 

...Simples Beijo...


Foto montagem do Beijo de Klimt

Beijo-te...
Da-me tuas mãos...
E alcançarei os teus pés...
E te inundarei d’essa verve que me envolve a alma...
Beijemo-nos...
Como a mais sublime das carícias...
Explodiremos...eu sei...em fractais de emoções incomensuráveis...
Beija-me...
Com os olhos, o nariz e a boca...
Fazendo de nós uma união ancestral de retinas que se reconhecem...
E embriagados das fragrâncias alquimicamente misturadas...
Recriaremos...no céu...um único corpo de constelação...
Contorno cintilante de bocas geminadas...

...Pele...


Na sua mais pura expressão... 
O Desejo... 
É úmido... 
É liquido... 
É quente... 
Onde o fugaz explode as intumescidas carnes em lavas... 

Valente e sedento Ateu... 
Sacia-se às margens"infernais" do paraíso! 

Tua Pele na Minha...Nossa Pele...

...Quimera...

Balança sem sentido nem direção...
Audíveis são todos os ecos do silencio...
Balança...
Enferrujada folha do outono...
Não se queixa nem maldiz...
[Não]
Conforma-se à sina...
Pois seu tempo já passou...




Rasga-se ao toque...
Amputada lembrança... 
Fachada de primavera...
[Muitas]
Muitas flores sorrindo em quimera...
Fazem sombras desbotadas...
Vestes de flor despetalada...

...Nem Almodóvar...


A névoa dessa madrugada que não amanhece resguarda... 
O rascunho vazio das palavras que voce não disse...
Secreto tremular das minhas carnes que nem Almodóvar conseguiria filmar...
Lá fora paginas lambidas para bem longe...
Agoniados acordes do vento...
Às portas fechadas... 
Testemunha envidraçada...
Desenhos de linhas displicentes que sem querer dizer...
Embaçam com a fugacidade de suspiros contidos...
A despedida de todas que havia em mim...

...Relíquias...


Não importava o por que...
Mas eles ainda se usavam...
Quando ela se fazia página em branco...
Ele a perpetuava com seus versos em letras de forma furiosos...
E quando ele se fazia páginas em branco...
Ela pregava fotografias no seu álbum de desejos...
Quando ela se fazia música...
Ele pisoteava suas partituras com seu sapateado ciumento...
E quando ele fazia música...
Ela sapateava enlaçada no par das suas lembranças...
E quando ela se calava...
Ele inundava os espaços com gemidos raivosos rasgando e emendando sua fotografia...
E quando ele se calava...
Ela rasgava o silêncio estalando na própria pele o chicote da saudade...
Se desejavam jurando nunca mais se tocarem... 
[re]toques com cheiro doce e sabor de fel...
E nessa pirraça simbiótica sibilavam um frustrado amor...
Em verso e prosa...
Rasgadas e costuradas...
Relíquias de um amor sem fim...

...e quando pensava que já era tarde...



Lavara suas verdades vazias em águas que considerava límpidas, pela ultima vez...

Estava ela entretida na pontinha dos pés...quase debruçada sobre o varal, pendurando-as...
Tal foi seu espanto, quando contra o sol, divisou as manchas que impregnavam as tramas...
Ao deparar-se consigo assim, frágil e contaminada, esfacelou-se em infinitas partículas...
E então no firmamento se fez um barulho ensurdecedor de silêncios...

...Ninguém vai mais longe...


Ah poderia afirmar que me conheço...

Reencontrar o papel carbono...
Testemunho de páginas perdidas...
Ah poderia dizer-lhes se me aprovo ou não...
Sinto muito se decepciono...
Mas a muito troquei o divã pela estação...
Sobrou-me mais tempo...
Para simplesmente viver...

...Quando o tempo é uma armadilha...


Diante dos meus guardados, retiro o meu reflexo do espelho... 

Nos convidamos para um chá e já estamos na terceira taça de vinho... 
Sinto falta de mim...talvez seja essa a única lembrança que me resta...

*

*
*

...e então, 
se puseram a escutar os gritos
 de todos os silêncios, 
que somente o coração
 que ama, 
soubera guardar... 

Brados Ecos [Re]tumbantes


Hoje às margens do Ipiranga sob um sol de raios fulgidos, me ponho a pensar...

Em que instante a liberdade se fez presente nesse impávido colosso. Talvez seja a minha visão turvada, pelo brilho de uma ganancia que me revolta, e só enxergo a grandeza, espelhada na politicagem dos vales pobreza praticada pelos "donos" deste Solo. 

Ó Mãe gentil, não consegues despertar-lhes mais amores, mesmo que ainda os deite em berço esplendido, em bosques surrupiados dos seus verdadeiros donos, não consegues farta-los em seus seios. Os teus filhos continuam cada vez mais, mais orfãos, analfabetos funcionais, meros animais de tração que aos olhos do mundo fulguram um Brasil - florão da América!
Em que instante se ergue da justiça uma clava forte, e onde está a glória do passado que não vem em socorro dos acochados aposentados - contribuintes de uma vida inteira, e miseráveis de um resto de vida. Será que estás diluída nos altos impostos ocupada em dilatar os salários dos nossos representantes políticos?
Em que ordem de valores está o nosso progresso?
Agora com lágrimas nos olhos e coração apertado de decepção canto: “E diga o verde-louro dessa flâmula” que a glória do passado nunca trouxe Paz, mas, que daqui dessa margem alguém, ainda, Te adora, “Entre outras mil, És tu, Brasil,Ó Pátria amada!" 

..Poliédrica...


Ah quem dera...

Se tu ativesses em revista por todas as faces...
De lado...ao meu lado...
Olhares de soslaios de retinas em chama...
A face que te chama...
De costas desnudada bafejada de ensejos...
A face que te provoca desejos...
De frente...evidente e premente...
A face que consente...
Acima...abaixo...
Virar-me-ia de todos os lados...
Inclusive do avesso!

...Ausência da Presença...


Esquadrinho na escuridão dos dias frios as noites quentes...
Encerrada nesse torpor que me acoberta...
Gravo com fogo essa selvageria que me consome...
As páginas frias que a vida me oferta...
Já não me rebelo nem me descabelo...
Travisto suavidade com densa maquiagem...
Em versos nus que gemem de frio...
Toda a ausência da minha presença...

...No fundo...No fundo...



Ficara hipnotizada olhando para o fundo da sua xícara de café...
Não poderia falar isso em voz alta...
Talvez não a compreendessem...
Manteve seu segredo encapado por um sorriso complacente...
Discrição usual dos que se sabem possuidores...
Está lá...
Ela agora entendia tudo:
Estava diante do desenho da sua ETERNIDADE!


Espreitando Primaveras


O dia insistia em amanhecer-lhe cinza. Tal qual uma expectadora enfadada, debruçava-se preguiçosamente além do vidro na janela. Secretamente não perdia a esperança de que quando abrisse as cortinas, os malabaristas saltassem em cena com piruetas que lhe surpreendessem, mas, ainda não fora desta vez...tudo continuava igual. 

Esticou o olhar no cinza das nuvens densas, recebendo como resposta uma garoa fininha, tomou como um recado de que o céu hoje não lhe daria sorrisos, pelo sabor das gotas que se formavam sobre a face, gosto de lágrimas. 
Cruzou os braços num abraço vazio, decerto lhe aquecia, o vento mais morno prenunciava a mudança de estação. Mais uma primavera lhe sorria a distancia, se lhe fosse possível mensurar, talvez a mesma que a apartara de si mesma. 
Assim vista de longe, compunham um belo quadro impressionista: ela no meio de um jardim enfeitado com cachos de saudade flor. 

Atalhos


Finalmente ela sentiu o vento fazendo festa nos seus cabelos, o sol impregnando a pele com um calor que lhe pareceu familiar. Viu-se mais uma vez sentada a beira daquela tão conhecida estrada, emaranhada naquela letargia, que a dominara por um tempo que não seria capaz de contar. 

Os olhos passearam pela paisagem, quase sem conseguir acompanhar a volúpia das pálpebras que, agora, debatiam-se diante de tantas possibilidades. O dia acordara resfolegando como um corcel indomável, um convite fascinante à cavalgada em pelo pela vida a fora...
De um salto ergueu-se, sacudindo o pó que ainda insistia impregnar-se na roupagem. Impaciente arrancou tudo de uma vez só, o momento exigia pele nova. Olhou pela última vez para o atalho que ficava às suas costas. Sorriu, um sorriso triste que só se oferece ao espelho, constatando que o colorido já havia esmaecido completamente. Não havia mais flores, morreram todos os girassóis. As folhas estalavam como um lamento, ressequidas. Veio-lhe a comprovação de que todos os becos tem saídas, pelos acordes da borracha do tempo intermitentemente trabalhando. Tudo que agora restava, eram os sulcos dos traços fortes que ficaram impressos naquela estradinha. 
Seus olhos embaçados piscaram pela última vez. Reluzentes agora, acompanhavam o corpo que se projetava em direção a um outro atalho, que lhe seduzia, um convite irrecusável a um lauto e delicioso café da manhã. Reconheceu-se faminta!

Serpenteando


Sim...”Mea Culpa”... 


Por não ter mãos...e nada vir a ofertar... 
Retire do mim o que lhe é de direito... 
E se rastejo é para que ninguém nunca siga meus passos... 
Mas também nunca duvide que eu possa voar... 
Já me basta carregar a culpa de uma invejosa Eva que desejou possuir o que não lhe pertencia... 
Por ter sido tão ingenua e lhe mostrar o que havia de paraíso na vida... 
Como um simples degustar de uma maça! 
Desconheço o significado de pecado... 
Meus desejos são “originais”! 
Nada é absoluto... 
O que veem veneno letal... 
Pode ser antídoto... 
O que é relativo vai sendo deixado ao longo do caminho... 
Sem pudores vou trocando de pele... 
Eu posso... 
Sou Serpente... 
E só quem é...sabe! 
...quem suporta carregar a culpa... 



[me ame pelo que represento para voce...não me julgue aquilo que necessita que eu seja]

Sobre a Mesa

Última Homenagem

Vingança Quente

Senhores tenham cuidado comigo!

Matreiramente

A Viagem

Lappétit em Prosa

Entre Véus

Monólogo Silencioso

Caída do ninho

PS:Vista seu melhor sorriso e vá ao banco!

A Boca!


Alimenta o nosso corpo, mas também alimenta e fere a alma de outrem - quando sorrimos ou falamos coisas boas de ouvir, ou verdades incertas ou quando profanamos as verdades alheias...
Adornada por variadas pérolas: alvas como marfim, ou com falhinha no meio, tortinhos, os perfeitos, não importa...o certo é que sorri mais largo quem tem dente, infelizmente!
Consegue esboçar todo o sarcasmo, mas também, pode transformar a vida de alguém com simples desenhos de felicidade ao sorrir...
A mesma que emite murmúrios de dor, também, uiva lascivos sussurros de prazer...
E os beijos... um instinto animal que pode traduzir deliciosas carícias...o indescritível beijo (pa)materno, um inocente beijo estalado na face, um beijo elegante na mão, ou ainda, uma indecorosa volúpia de desejo onde duas bocas se procuram famintamente, mas também, há de ter o singelo selinho de carinho...ou a boca apenas encostada na pele!
Lábios finos ou carnudos, tanto importa, apenas uma “parte” do conjunto que é a face, e que poucos lembram, mas que é  o primeiro meio de comunicação do ser humano com o mundo, eis : a BOCA! 

Despertar

23.5.12

Rotina



É fato que o exílio almejado fora concedido.
É fato que a vida se invertia nas horas entornadas pela insônia noturna.
Esforçava-se para calibrar os olhos, à luz do dia, que insistia em penetrar sua noite.
Sustentando o corpo na sombra da parede, como prédio urbano que se escora no cinza da cidade, não surte efeito de cafeína - o arremedo de sorriso que endereça ao espelho do banheiro que lhe espreita, num ângulo diagonal.
Despe-se de todas as fantasias para mergulhar na boca escancarada do chuveiro. Uma algazarra de piranhas famintas, com promessas de arrancar-lhe toda a pele dos ossos.
Sobrevive.  Acordando os poros entupidos de solidão, com as lambidas do felpo da toalha ressaqueada e sem sentimento.
Deixa que o armário lhe cuspa um uniforme de retirante e o espelho lhe vire às costas, negando-lhe a imagem preterida.
Amarra os cadarços, como se estivesse ancorando a jangada esbulhada de um náufrago que retorna, sem já ser mais esperado.
Para onde vamos? 
Pergunta-lhe a alma que balança no beiral do telhado do dia.
A tarde já estava indo longe, deixando uma saliva morna e melancólica, como lenha crepitando em lareira preguiçosa, um ínfimo traço de emoção.  Oferendas ao inverno, o único que não lhe abandona.

22.5.12

Segunda pele de volta!

 Há em mim um que de desassossego que não me permite nunca parar!
Sejam bem vindos a esse espaço que a cada dia se constrói!

20.5.12

Desembrulhando


Despi-me das desilusões rolando pelas escadarias como arcos ogivais de pedras polidas pelo tempo.
Das palavras destecidas ao acaso, do vento que passa lépido, rodopiando à revelia dos mares e das marés que me levam e me trazem.
Não há nada mais saboroso do que provar minh’ alma esvaziada.
Do que entregar-me à vida sem reservas e sem traços certos de destino.
Sendo arrebatada em rodopios com o vento ora amigo, ora predador, que me quer consumir até o último respiro.
Um caramelo de alcaçuz saboroso aos olhos, às narinas abertas, impregnado de uma docilidade que se apropria da minha existência, como se jamais tivesse provado dissabores.
Pronto para ser derretido no céu da boca...
Desembrulhando...
Em câmera lenta como um suspiro...
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...Sobre Imagens...

Informo que algumas imagens utilizadas aqui, não são da minha autoria, tendo sido em sua maioria, provenientes do google imagens. Ficando assim, à disposição dos seus respectivos autores, solicitarem a retirada a qualquer momento.

Fiéis escudeiros! Fàilte!